Eu morri.
E eu morri, mas estranhamente continuo morrendo.
Em alguns momentos, confesso, fui eu mesma quem me matei, e em outros, encontrei a minha morte pelas mãos de terceiros.
Mas vejam, ainda continuo renascendo.
Renascendo para ser uma pessoa melhor.
Alguém mais forte, mais inteira, mais capaz do que meu eu anterior.
Matei sentimentos, muitos dos quais me faziam esquecer o mundo, e muitos outros que me sufocavam.
Inclusive, uma parte de mim morria ao sufocá-los, pois eram complexos demais para serem entendidos, talvez nem por mim.
Eles eram difíceis demais para serem discutidos, vergonhosos demais para serem compartilhados, assustadores demais para serem confrontados, frágeis demais para não se quebrarem com facilidade.
Alguém mais silencioso e sério renasceu em meu lugar; a defensiva virou seu hábito, mas seu fardo é a insegurança constante.
Matei traços da minha personalidade — uma luta ainda constante.
Traços esses que, sinto, talvez nunca se tornem perfeitos ou suficientes.
Alguém tentando seguir um molde, tentando obedecer regras impostas, renasceu em meu lugar; o medo de desapontar os outros virou seu hábito, mas seu fardo é a dificuldade, o medo em encontrar e mostrar quem aceitaria meu "verdadeiro eu".
Matei com lágrimas — e várias vezes com ódio — no olhar a minha própria imagem, pois não tinha beleza ali, porque não era o bastante, e o pior, não era suficiente.
Porque, quem sabe, quem realmente sabe?
Não correspondiam aos padrões que o mundo me impôs.
Alguém em busca de um ideal de vaidade renasceu em meu lugar, e ainda continua sua transformação; criticar-se se tornou seu hábito, mas seu fardo é a falta de amor próprio.
Matei e vi serem mortos, com muito pesar, muitos sonhos.
Alguns eu matei por conta própria, já sabendo o provável destino que teriam, ou simplesmente para não ter que vê-los sendo destroçados por outras mãos.
Não me orgulharei desses atos, pois me envergonho de não ter tido coragem, talvez audácia, para lutar por eles, para honrá-los.
Ao menos, tentarei manter vivo o pouco que restou de cada um.
Alguém mais racional renasceu em meu lugar; os conflitos com o passado, as possibilidades do futuro, tornaram-se seu hábito, mas seu fardo, além da falta de esperança, é não se importar mais com os sonhos do futuro.
Eu morri.
E eu morri, mas estranhamente continuo morrendo.
Num ciclo aparentemente sem fim, e doloroso.
Apesar da dor, consegui notar algo:
A cada vez que retornava, além de me moldar às vontades alheias, percebia que nunca seria boa o bastante, nunca seria suficiente.
Ao contrário do que muitos dizem, posso até ter voltado mais forte, mas não me sinto assim. Me sinto quebrada.
Aprendi lições valiosas, algumas até distorcidas, neste ciclo sem fim. Pude conhecer pessoas de todos os tipos e formas... Das mais cruéis até as mais bondosas e doces.
Já não amo mais a minha própria pessoa há muito tempo, e admito que na minha mente fragmentada, ninguém, de fato, poderia fazer o mesmo.
Cheguei à conclusão de que meu afeto próprio é quase nulo, e tenho sérias, talvez absurdas, dúvidas de que aqueles que me cercam consigam sentir o mesmo.
Queiram-me perdoar aqueles que disseram nutrir afeto por mim. Acreditem em mim quando digo que os amo e aprecio verdadeiramente. Pois eu realmente o faço.
Eu morri.
E eu morri, mas estranhamente continuo morrendo...
Mas consegui notar que, de fato, uma parte minha não se perdeu.
Um traço que tentei apagar tantas vezes, mas em vão.
Alguns julgam esse talento um caminho sem futuro. Apesar da beleza que ele carrega, é pouco valorizado por aqueles de quem eu esperava apoio.
Minha criatividade ainda existe em mim como um lembrete constante da saudade do que um dia fui, do que me tornei, e um aviso do que posso vir a ser.
E mesmo morrendo aos poucos, mesmo tão perdida, só me resta continuar.
Minha criatividade, em meio ao caos que existe em mim (e, suponho, em cada um de nós), se tornou meu refúgio.
Ela sempre está ali, em pensamentos; no silêncio; no barulho; na ponta dos dedos; do lápis para o papel... Ela simplesmente não morre.
Numa forma de me expressar, e talvez uma tentativa do meu eu de sinalizar que ainda estou aqui, mesmo que escondida, mas resistindo para me lembrar de que, mesmo com minha alma ruindo e minha mente quebrando, esse traço de criatividade (talvez uma forma de rebeldia) ainda mostra que posso continuar tentando ser melhor.
Mesmo que o processo seja doloroso e difícil, posso ser melhor à minha maneira, mesmo que tenha que passar ainda mais vezes entre morrer e renascer.
Eu morri.
E eu morri, mas estranhamente continuo morrendo e renascendo.
Até que, quem sabe, chegue o dia em que eu já não renasça mais.
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